domingo, 1 de julho de 2012

Roger Chartier sobre a leitura

 


"Hábito de ler está além dos livros"

Autor: Amanda Cieglinski - Agência Brasil
24/06/2012


Um dos maiores especialistas em leitura do mundo, o francês Roger Chartier destaca que o hábito de ler está muito além dos livros impressos e defende que os governos têm papel importante na promoção de uma sociedade mais leitora.
O historiador esteve no Brasil para participar do 2º Colóquio Internacional de Estudos Linguísticos e Literários, realizado pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). Em entrevista à Agência Brasil, o professor e historiador avaliou que os meios digitais ampliam as possibilidades de leitura, mas ressaltou que parte da sociedade ainda está excluída dessa realidade. “O analfabetismo pode ser o radical, o funcional ou o digital”, disse.
Agência Brasil: Uma pesquisa divulgada recentemente indicou que o brasileiro lê em média quatro livros por ano (a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, divulgada pelo Instituto Pró-Livro em abril). Podemos considerar essa quantidade grande ou pequena em relação a outros países?
Roger Chartier: Em primeiro lugar, me parece que o ato de ler não se trata necessariamente de ler livros. Essas pesquisas que peguntam às pessoas se elas leem livros estão sempre ignorando que a leitura é muito mais do que ler livros. Basta ver em todos os comportamentos da sociedade que a leitura é uma prática fundamental e disseminada. Isso inclui a leitura dos livros, mas muita gente diz que não lê livros e de fato está lendo objetos impressos que poderiam ser considerados [jornais, revistas, revistas em quadrinhos, entre outras publicações]. Não devemos ser pessimistas, o que se deve pensar é que a prática da leitura é mais frequente, importante e necessária do que poderia indicar uma pesquisa sobre o número de livros lidos.
ABr: Hoje a leitura está em diferentes plataformas?
Chartier: Absolutamente, quando há a entrada no mundo digital abre-se uma possibilidade de leitura mais importante que antes. Não posso comparar imediatamente, mas nos últimos anos houve um recuo do número de livros lidos, mas não necessariamente porque as pessoas estão lendo pouco. É mais uma transformação das práticas culturais. É gente que tinha o costume de comprar e ler muitos livros e agora talvez gaste o mesmo dinheiro com outras formas de diversão.
ABr: A mesma pesquisa que trouxe a média de livro lidos pelos brasileiros aponta que a população prefere outras atividade à leitura, como ver televisão ou acessar a internet.
Chartier: Isso não seria próprio do brasileiro. Penso que em qualquer sociedade do mundo [a pesquisa] teria o mesmo resultado. Talvez com porcentagens diferentes. Uma pesquisa francesa do Ministério da Cultura mostrou que houve uma redistribuição dos gastos culturais para o teatro, o turismo, a viagem e o próprio meio digital.
ABr: Na sua avaliação, essa evolução tecnológica da leitura do impresso para os meios digitais tem o papel de ampliar ou reduzir o número de leitores?
Chartier: Representa uma possibilidade de leitura mais forte do que antes. Quantas vezes nós somos obrigados a preencher formulários para comprar algo, ler e-mails. Tudo isso está num mundo digital que é construído pela leitura e a escrita. Mas também há fronteiras, não se pode pensar que cada um tem um acesso imediato [ao meio digital]. É totalmente um mundo que impõe mais leitura e escrita. Por outro lado, é um mundo onde a leitura tradicional dos textos que são considerados livros, de ver uma obra que tem uma coerência, uma singularidade, aqui [nos meios digitais] se confronta com uma prática de leitura que é mais descontínua. A percepção da obra intelectual ou estética no mundo digital é um processo muito mais complicado porque há fragmentos e trechos de textos aparecendo na tela.
ABr: Na sua opinião, a responsabilidade de promover o hábito da leitura em uma sociedade é da escola?
Chartier: Os sociólogos mostram que, evidentemente, a escola pode corrigir desigualdades que nascem na sociedade mesmo [para o acesso à leitura]. Mas ao mesmo tempo a escola reflete as desigualdades de uma sociedade. Então me parece que, também, é um desafio fundamental que as crianças possam ter incorporados instrumentos de relação com a cultura escrita e que essa desigualdade social deveria ser considerada e corrigida pela escola que normalmente pode dar aos que estão desprovidos os instrumento de conhecimento ou de compreensão da cultura escrita. É uma relação complexa entre a escola e o mundo social. E é claro que a escola não pode fazer tudo.
ABr: Esse é um papel também dos governos?
Chartier: Os governos têm um papel múltiplo. Ele pode ajudar por meio de campanhas de incentivo à leitura, de recursos às famílias mais desprovidas de capital cultural e pode ajudar pela atenção ao sistema escolar. São três maneira de interação que me parecem fundamentais.
ABr: No Brasil ainda temos quase 14 milhões de analfabetos e boa parte da população tem pouco domínio da leitura e escrita – são as pessoas consideradas analfabetas funcionais. Isso não é um entrave ao estímulo da leitura?
Chartier: É preciso diferenciar o analfabetismo radical, que é quando a pessoa está realmente fora da possibilidade de ler e escrever da outra forma que seria uma dificuldade para uma leitura. Há ainda uma outra forma de analfabetismo que seria da historialidade no mundo digital, uma nova fronteira entre os que estão dentro desse mundo e outros que, por razões econômicas e culturais, ficam de fora. O conceito de analfabetismo pode ser o radical, o funcional ou o digital. Cada um precisa de uma forma de aculturação, de pedagogia e didática diferente, mas os três também são tarefas importantes não só para os governos, mas para a sociedade inteira.
ABr: Na sua avaliação, a exclusão dos meios digitais poderia ser considerada uma nova forma de analfabetismo?
Chartier: Me parece que isso é importante e há uma ilusão que vem de quem escreve sobre o mundo digital, porque já está nele e pensa que a sociedade inteira está digitalizada, mas não é o caso. Evidente há muitos obstáculos e fronteiras para entrar nesse mundo. Começando pela própria compra dos instrumentos e terminando com a capacidade de fazer um bom uso dessas novas técnicas. Essa é uma outra tarefa dada à escola de permitir a aprendizagem dessa nova técnica, mas não somente de aprender a ler e escrever, mas como fazer isso na tela do computador.

Publicado no blogue
www.blogdogaleno.com.br
por indicação do Bibliotecar 










quinta-feira, 24 de maio de 2012

"Matilda" de Roald Dahl ou a leitura como refúgio


Matilda by Roald Dahl - Powell's Books

À cerca do livro:
 "For most kids, The Trunchbull is pure terror, but for Matilda, she's a sitting duck.
Who put superglue in Dad's hat? Was it really a ghost that made Mom tear out of the house? Matilda is a genius with idiot parents—and she's having a great time driving them crazy. But at school things are different. At school there's Miss Trunchbull, two hundred menacing pounds of kid-hating headmistress. Get rid of The Trunchbull and Matilda would be a hero. But that would take a superhuman genius, wouldn't it?"

Retirei a informação do blogue Bibliotecar que publicou via :
http://www.unshelved.com/2011-3-4

sábado, 12 de maio de 2012

Número temático da revista Informação & Informação


É sempre agradável encontrar notícias como esta na caixa de correio:
"a revista Informação & Informação publicou um número temático sobre "Conceitos na Organização e Representação do Conhecimento", disponível em http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/informacao. Convidamos a navegar no sumário da revista para acessar os artigos e outros itens de seu interesse."

 Fui ver e o resultado foi excelente. Aqui fica o endereço e não deixem de passar por lá. O tema fala por si.
 Agradeço à colega Brígida Maria Nogueira Cervantes que através do EDICIC enviou a notícia.

sábado, 3 de março de 2012

O fim do paraíso para os estudiosos.


Pois foi assim. Encerraram a Library.nu essa fonte inesgotável de saber. Ali encontrei livros que há muito procurava e cujo preço me impedia de os comprar. Aproveitei e indiquei aos meus alunos que, como devem calcular, não vendem livros e a grande maioria não tem ordenados ao alcance da aquisião de livros de texto obrigatórios. As bibliotecas universitárias, com orçamentos baixos, lutam para conseguirem comprar livros. Na Library.nu encontravamos tudo ou quase tudo. Excelente artigo cuja leitura aconselho. Basta clicar no link abaixo.

The disappearing virtual library - Opinion - Al Jazeera English

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Ler é preciso, viver também é preciso...


Pois é. Escolhi para título do  primeiro post de 2012 uma frase que pode esconder uma certa ambiguidade. Lembrei-me da canção do Chico Buarque de Hollanda que tem na letra algo como "navegar é preciso...viver também é preciso". Julgo eu porque às vezes "adaptamos" às letras das músicas palavras que não estão lá mas que nós gostaríamos que estivessem porque nos soam bem. É o caso. Talvez um dia destes escreva aqui algo sobre o que por vezes me soa como sacralização da leitura e, pior ainda, do livro. Pior, porquê? Aqui entra a diferença entre pensamento e objecto. Um bibliófilo tem amor, não querendo generalizar, não ao conteúdo do livro mas ao objecto que o livro representa. Claro que não quero generalizar mas já generalizando afirmo. 
A leitura abre-nos horizontes . Não faço distinção entre obras maiores ou menores pois o que me interessa é o leitor e o prazer que daí retira. Sempre me aborreceram as chamadas leituras obrigatórias. O parecer mal não ter lido. Tanta hipocrisia se esconde nesses pseudo prazeres como se fossem encontros entre gente de "boa" ou "má" família. Deixem-se disso! Leiam os Direitoss do Leitor de Daniel Pennac :

Já agora aqui deixo um vídeo sobre o incentivo à leitura que achei simples e original. Sem grande retórica.
Cliquem para ver .
http://vimeo.com/31603360




Daniel Pennac 
Como um romance
Colecção: Pequenos Prazeres
Nº págs.: 174
ISBN: 9789724112008